Espera

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(Por questões de espaço, aqui vai o texto orginal)

ESPERA
Osmar terminou o expediente quando o grande relógio anunciava 19 horas e 17 graus, correu para o chuveiro, tomou um banho rápido, se enxugou e passou um pouco do perfume que ainda restava no vidrinho com um nome estrangeiro. Vestiu sua melhor roupa e foi para a rodoviária esperá-la. Foi à pé, pois achava que o exercício abriria o apetite.

Na boca do túnel, antes do centro da cidade, dois usuários de crack lhe ofereceram pedras como se fosse velho conhecido. Deu “boa noite” tímido e seguiu sem ser importunado. Chegou à estação e se acomodou na última cadeira de uma fileira que terminava na plataforma 12. Chegaram vários ônibus de São Paulo, mas Osmar sabia que ela não viria de tão perto. “Sei que ela chega hoje, mas não de São Paulo. Como era mesmo o nome da cidade?, pensava alto, enquanto ao seu lado algumas pessoas só prestavam atenção às mensagens dos celulares.
Eram 21 horas quando a fome apertou e Osmar pediu um sanduíche de queijo e um café com leite. “Dinheiro ou cartão?”, perguntou cínico o caixa. Osmar esparramou umas notas e umas moedas sobre o balcão. Esperou o lanche ficar pronto sem deixar de prestar atenção à chegada de um ônibus de Quixeramobim. Desceu somente o motorista. “Olha a janta!”, chamou o balconista.
Osmar voltou à sua cadeira e começou a mastigar quando um vigia lhe chamou a atenção: “Não deixa cair farelo. Olha as pombas” disse rabugento apontando para o telhado, onde algumas aves se preparavam para pousar perto de Osmar e uma delas apontava perigosamente a bunda para a cabeça do primeiro descuidado.
Mais um coletivo chegou com o letreiro ilegível. Pessoas cansadas desciam e recolhiam suas malas do bagageiro. Ansioso, Osmar limpou os lábios com alguns farelos na manga de sua melhor camisa certo de que uma das passageiras fosse a mulher que esperava. De repente, surgiu na escada do coletivo um par de canelas cobertas por uma saia florida e alegre. Menos alegre que o sorriso que ela presenteou um jovem logo atrás de Osmar e com quem ela se foi feliz.
Paciência. Ele a teve quase todo o restante da noite. Até o último ônibus interestadual que parou na rodoviária a uma e dez da manhã e dele não desceu a mulher que Osmar esperava. Mesmo se ela desembarcasse, só encontraria o coitado vencido pelo sono no espaço mais coberto e silencioso da estação.

Lá no canto, onde não havia o perigo dos pombos, onde Osmar se sentia protegido pelos vigias do turno da madrugada, onde não seria cobrado por uma antiga dívida de droga e pudesse sonhar com uma mulher que um dia ainda iria chegar de um lugar qualquer para dizer que o amava.

O dia começava a clarear e o bico da bota do vigia da madrugada o acordou: “Quase seis horas, Seu Osmar, daqui a pouco o encarregado tá aí e já sabe o que ele faz com morador de rua. Manda de volta pra rua! Vai catar seus ‘papelão’. Deixa o cobertor aí que eu entoco pro senhor. Tenho certeza que ele vai estar te esperando. Até…”

Osmar ainda teve tempo de ver o primeiro ônibus chegar de Souza e despejar mais uma família de miseráveis. A mulher da sua vida nunca chegaria de manhã assim tão maltrapilha e desarrumada. Ele tem certeza que ela ainda vai descer ali com um vestido estampado, uma flor nos cabelos e lhe dar um beijo exatamente como sonhos de todas as suas noites na estação rodoviária.

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