TEXTOS

O PÉ TORTO
cra

O encontro estava marcado para as nove. Geraldo tinha então apenas 15 minutos para chegar no restaurante. Documentos, carteira, dinheiro, cartão, camisinha, cueca nova, perfume, cartão (de novo?). Achou que não faltava nada. Ah, qual o nome dela? Fodeu! Não, tudo bem, quando chegar lá e olhar na cara dela ia lembrar. Camisa ou camiseta? Calça podia ser a jeans mesmo.

Dez minutos. Calçou correndo o sapato. Apertado. Fazia tempo que não colocava sapatos. E aquele seu pé torto sempre doía com sapatos. Tinha alguma coisa no sapato. Deixa, agora não dá tempo de ver o que é. O aplicativo tá chegando.
Que sorte! Ela ainda não havia chegado. Dava tempo de ver o que tinha no sapato. Ih, lá vinha ela, – Ana? – espontânea no seu charme de andar – Fátima? – sem mexer muito as cadeiras – Andréa? – e totalmente dona do seu estilo – Elisa?
Beijos nos rostos, entraram e foram para a mesa reservada. Esquecera o que havia no sapato e até a dorzinha que sempre sentia no pé torto. O garçom ofereceu o cardápio à moça, ele pediu um vinho mediano, eles conversaram trivialidades e riram não das piadas, mas porque sentiam o prazer do encontro. Um excitação no ar. Por baixo da cadeira seu pé torto bailava como nunca. Algo o massageava. Geraldo estava feliz. Ela também.

A moça foi ao banheiro. Geraldo lembrou que tinha algo no sapato. Não ia tirá-lo não. Nunca sentira tanto prazer em um sapato. Algo tocava no ponto exato de sua eterna dor de pé torto. Devia ser uma palmilha que ele não lembrava de ter comprado. Ela voltou – Alicia? – com batom mais vivo – Marcela? – cabelo aprumado – Vanessa?
Fizeram amor três horas depois, casaram-se 8 meses mais tarde. Após quatro anos e um filho, estavam no cartório finalizando a separação. Irritado, Geraldo aguentou até o fim das burocracias para tirar os sapatos na praça árida e calorenta de dezembro. O mesmo par de sapatos que usou no primeiro encontro. Uma coisa mexia no seu pé torto. O mesmo pé torto que fazia tempo não importunava.

Arrancou o calçado. Tinha um bicho morto lá dentro. Um besouro, uma mosca varejeira, não importava. Amassou o bicho, jogou os sapatos no lixo. Saiu mancando como faz até hoje, resmungando de uma dor incurável nos pés, que lhe sobe pelo ciático e termina na nuca, lhe causa dores de cabeça e um mau humor insuportável. Vive assim, zangado, sozinho, ranzinza e, aos cinquenta e cinco anos quase não lembra do próprio nome nem consegue uma infeliz que seja para massagear seu pé torto.

O bilhete de Aguinaldo

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“Quero dar um fim à minha vida. Nem posso chamar isso de vida! Estou separado há 5 anos e não encontro uma mulher tão boa quanto Estela. Eu sei que é feio comparar, mas Estela não me cobrava, não tinha ciúmes de mim, nem eu dela… Nosso casamento não tinha mais sexo, mas isso nem importa mais.

Meu trabalho é uma merda. Nunca fiz o queria na vida. Por outro lado, também não tive coragem, de sair fora da empresa nas vezes em que tive oportunidade. Estou lá há trinta anos.

E essa depressão! Esse pânico! Essas palpitações que vêm e vão. Sempre acho que vou morrer ou implodir. É terapia, um saco de remédios por mês, ioga, caminhada…Já perdi vinte quilos, mas não é por causa dos malditos exercícios. Eu não tenho é apetite. Não dá vontade de comer. Não tenho fome de viver.

De que maneira vou me suicidar? Quando calculo os meios para isso, me perco e, quando dou por mim, estou pensando nas contas, nos boletos, nos exames médicos e…no medo.

Eu queria mesmo era voltar para a Estela. Mesmo sem amá-la do jeito que ela merece. Será que ela ainda vai me querer? Será que ela já tem outro? Será que vou sentir ciúmes dela finalmente? Eu só queria deitar no colo dela e envelhecer ali, quietinho até…”

Estela, ex-mulher de Aroldo já estava no IML aguardando o laudo havia mais de 3 horas, quando o perito Brandão entrega um papel em suas mãos sem sequer olhar para o seu rosto.

“Certidão de Óbito. Aguinaldo José. Causa Mortis: Parada cardíaca. Sinais de violência: Ausentes. Ingestão de elementos letais: Negativo. Conclusão. Morte súbita natural.”

Estela permaneceu sentada no corredor do Instituto Médico Legal mais uns quarenta minutos a sorrir docemente para o documento e o bilhete de despedida em seu colo, onde 24 horas atrás Aguinaldo havia procurado refúgio, chorado algumas lágrimas e suspirado seu último momento de paz.